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domingo, 22 de junho de 2014

Pedro Abelardo – Lógica para principiantes II


Lógica para principiantes[1] – Universais X Nominalismo

£5) Quanto ao Gênero: "com efeito, o nome do gênero e dos demais não designa a substância, mas o acidente. Tomamos aquele "o que" mais de acordo com a propriedade, o acidente, do que a substância". (Abelardo é nominalista).

Quanto as categorias de Aristóteles[2], os cinco predicativos:

1. O Gênero: os dez gêneros supremos de tudo, nos quais inclui as infinitas significações dos nomes de todas as coisas: substância (οὐσια); quantidade (ποσόν); qualidade (ποιόν); relação (πρός τι); lugar (ποῦ); tempo (ποτέ); posição (κεῖσθαι); posse/hábito (ἔχειν); ação (ποιεῖν); efeito/paixão  (πάσχειν).

2. A Espécie: sem a qual não pode haver conhecimento do gênero, sendo um e outro relativos;

3. A Diferença: acrescentada ao gênero, perfaz a espécie; posta como divisão do gênero, desvenda a significação da espécie. Ex.: espécie (humana) = gênero (animal) + diferença (racional);

4. O Próprio: o que é próprio das categorias; é próprio da substância ser algo, visto ser una e idêntica numericamente;

5. O Acidente: distingue a diferença ou o próprio.

£6) O uso das categorias para as definições, descrições e divisões:

O uso das categorias no jogo da argumentação lógica com relação às definições. Há de fato uma definição substancial e uma descrição. A definição substancial compete apenas à espécie, incluindo o gênero e as diferenças. Por outro lado, a descrição é frequentemente derivada dos acidentes. Essas cinco predicações são também necessárias para as divisões.

£7) O conhecimento desses cinco serve para descobrir argumentações ou para confirmar as já descobertas, o que ocorre de acordo com a natureza do gênero e da espécie ou dos demais.

£8) Abelardo retoma Boécio[3] / Porfírio[4] na questão dos universais: 1. Gêneros e espécies tem um verdadeiro ser ou consistem apenas de opinião (reais ou só existem no pensamento); 2. Se verdadeiros, são essências corporais ou incorporais; 3. Será que são separados dos sensíveis ou colocados neles?

Questões colocadas por Abelardo: 


1. Há imposição dos nomes universais onde coisas diversas se reúnem (não há universais); 2. intelecção de nomes universais pela qual nenhuma coisa parece ser concebida (negação dos universais); 3. relação, há alguma coisa subordinada através da subordinação (existe o signo); 4. destruídas a coisa denominada, o universal poderia constar da significação da intelecção, com no caso do nome 'rosa' quando não há nenhuma das rosas às quais é comum (Abelardo toma partido do Nominalismo).

Para Abelardo, o Nominalismo admite que o universal ou conceito é um signo dotado de capacidade de ser predicado de várias coisas. Para Leibniz, “são nominalistas todos os que acreditam que, além das substâncias singulares, só existem os nomes puros e, portanto, eliminam a verdade das coisas abstratas e universais”.

Abelardo cita Boécio que lembra que Aristóteles admite que os gêneros e as espécies subsistem apenas nos sensíveis, são, porém, inteligidos fora deles; Platão, no entanto, admite que eles, não só são inteligidos fora dos sensíveis, mas também que eles são fora dos sensíveis.

[digressão I] O Realismo (Platão e Aristóteles) e o Nominalismo (Abelardo e Roscelin) constituem as duas soluções típicas para o problema dos universais. Para o realismo, o universal é além de conceito mental, a essência necessária ou substância das coisas. Para o Nominalismo (para a tradição estoica), o universal é um signo das coisas.

£9) A natureza dos universais: distinção das propriedades dos universais por meio dos singulares e indaguemos se elas cabem às palavras ou, também, às coisas. (palavras/nominalismo X coisas/realismo).

Para Aristóteles: ‘universal’, aquilo que é apto a ser predicado de muitos; para Porfírio, ‘singular’, aquilo que é apto a ser predicado de um. Segundo Abelardo, donde se acolhe que as próprias coisas estão contidas no nome universal.

£10) Aberlardo: Os nomes/palavras são chamados de universais - serve de termos-predicados das preposições. Segundo Aristóteles, o ‘gênero’ determina a qualidade quanto à substância, pois ele significa como ‘algo é’. Para Boécio, é muito útil saber que o ‘gênero’ é de certo modo uma semelhança única de muitas espécies, a qual revela a ‘concordância substancial’ de todas elas.

Diz Abelardo: é próprio das ‘palavras’ significar ou revelar, e das 'coisas', serem significadas. O vocábulo de nome predica-se de muitos nomes e é de certo modo uma espécie contendo indivíduos sob si mesma. Há palavras universais às quais somente se atribui a função de servir de termos-predicados das proposições.

A negação dos universais:

Para Abelardo, parece que nenhuma coisa, nem coleção alguma de coisas, pode ser predicada de muitos tomando um a um, sendo tal a exigência própria do universal. Pois, embora este ‘povo’ ou esta ‘casa’ ou ‘Sócrates’ possam ser afirmados de todas as suas partes ao mesmo tempo, ninguém diz absolutamente que são universais, uma vez que a sua atribuição não se aplica a cada uma delas.

A coisa universal para alguns: uma substância essencialmente a mesma é colocada em coisas que diferem umas das outras pelas formas (essência material dos singulares que diferem entre si por meio dos acidentes), acomodando formas diferentes à essência que permanece sempre a mesma. Ex.: em cada um dos homens, diferentes numericamente, está presente a mesma substância do homem que aqui se torna Platão.

Porfirio: pela participação da espécie, muitos homens são um só, mas nos particulares o único e comum é muitos. E indivíduo porque cada um deles resulta das propriedades cuja coleção não se encontra em nenhum outro.

Abelardo refuta Porfírio: os mesmos colocam uma só e mesma substância de animal em cada um dos vários animais diferentes quanto à espécie, a qual fazem entrar nessas diferentes espécies pela recepção de diversas diferenças, tal como se desta cera eu fizesse, ora a estátua de um homem, ora a estátua de um boi, acomodando as formas diferentes à essência que permanece a mesma. É preciso, porém, ter em consideração que a mesma cera não constitui as estátuas ao mesmo tempo, como se admite no caso dos universais.

£11) Boécio - o ‘universal’ é de tal forma comum, que o mesmo está todo ao mesmo tempo nos diferentes dos quais constitui materialmente a substância, embora seja em si mesmo universal, o mesmo é ‘singular’ pelas formas que se lhe acrescentam no modo atual - sendo ‘universal’ em natureza, mas ‘singular’ em ato, é inteligido como incorpóreo e não-sensível na simplicidade de sua universalidade, mas o mesmo subsiste em ato de modo corpóreo e sensível por meio dos acidentes. Subsiste como ‘singulares’ e são inteligidos como ‘universais’.

Abelardo refuta Boécio: a física se opõe aos contrários. Os contrarios, na forma de Boécio, estariam simultaneamente presentes no mesmo; não seriam contrários quando se encontram, ao mesmo tempo, em absolutamente a mesma essência (o animal racional seria o animal irracional).

£12) Abelardo refuta a universalidade:

Há alguns que acreditam que “a essência de todas as coisas seria apenas os dez gêneros supremos, uma vez que cada um dos predicamentos (dos dez) reconhece-se apenas uma essência que diversifica pelas formas dos seus singulares e sem elas não haveria diversidade. Por conseguinte, assim como todas as substâncias seriam o mesmo, assim como todas as qualidades, quantidades, etc. Nenhuma diferença poderia provir das formas que, consideradas em si mesmas, não são diferentes, assim como as substâncias também não o são”.

£13) Abelardo contesta que uma essência absolutamente idêntica exista simultaneamente em diversos. As coisas singulares não apenas são diferentes entre si pelas formas, mas são pessoalmente distintas na sua essência e que, de modo algum, aquilo que está em uma, matéria ou forma, está na outra. Existe na própria diversidade da essência. A distinção dos predicamentos é determinada por essa diversidade. Deste modo, os ‘universais’ conforme um acordo de semelhança, “todos os homens distintos de si mesmo são o mesmo homem”, não ao que é essencialmente, mas indiferente conforme a diferença, a distinção que chamam de singulares.

£14) Parece então concordar com Boécio no que diz que "não se deve julgar que a espécie seja outra coisa senão o pensamento da semelhança substancial dos indivíduos coligidas no ‘gênero’, da semelhança das espécies coligidas". De outra forma, não se teria, na coisa universal a predicação a vários ou a continência de muitos, e os universais não seriam menos numerosos que os singulares.

£15) segundo a lógica da universalidade: uma coleção do quer que seja é um todo integral. O todo universal é anterior ao seus próprios indivíduos. A diferença entre o todo integral e universal é que a parte não é o mesmo que o todo, mas a espécie é sempre o mesmo que o gênero (a coleção inteira de homens é a multidão dos animais).

£16) Segundo Abelardo, as coisas, nem tomadas isoladas nem coletivamente, podem ser chamadas de universais no que diz respeito a serem predicadas de vários, resta que confiramos essa universalidade às palavras: Apelativos <> Próprios (termos gramaticais) X Universais <> Singulares (termos dialéticos).

Um vocábulo universal é aquele que é predicado de muitos tomados uma a um, tal como este nome homem, que pode ser ligado com os nomes particulares de homens segundo a natureza das coisas subordinadas às quais foi imposto. O ‘universal’ possui apenas força de predicação.

O vocábulo singular é aquele que é predicado de um só, como ‘Sócrates’, tomado como nome de um único. Muitos nomes coincidem numa só palavra (homônimos/equívocos), portanto, quando se determina que o ‘universal’ é predicado de muitos, é também para distingui-lo dos vocábulos equívocos (mesmo nome significado diferente) como unidade de significação.

£17) Ser ‘predicado’ é poder está ligado a algo em virtude da enunciação do verbo de ligação ‘é’, como 'homem' pode ser ligado a diversos por meio do verbo substantivo. Essa ligação diz respeito à natureza das coisas e à apresentação da verdade do seu estado. As proposições categóricas falsas têm um termo-predicado não disposto na natureza das coisas.

£18) Os ‘universais’ parecem não recolher significação alguma das coisas, por não fixarem nenhuma intelecção de alguma coisa, pois todas as coisas subsistiriam distintas em si mesmas (e já não seriam comuns mas singulares) e também não se reuniriam em alguma coisa, pois não há coisa alguma na qual se reúnam. Desse modo, parece que um vocábulo universal não significa coisa alguma. Mas não é assim.

£19) De fato, eles significam, de certo modo, coisas diversas por meio da denominação. A palavra 'homem' tanto nomeia cada um dos homens por motivo de uma causa comum (que são homens), pelo que é denominada universal, como constitui certa intelecção em comum, dos quais concebe uma semelhança comum.

Causa comum segundo o qual o nome universal é imposto, ou significação dos universais quanto às coisas pela denominação: cada um dos homens, distintos um dos outros, embora difiram tanto pela própria essência quanto pelas formas, se reúnem nisto que são homens (Ser homem), o que não é uma coisa, mas aquilo que denominamos causa comum da imposição do nome a cada um, conforme eles se reúnem uns com os outros. E assim, se impõem uma denominação que é concebida à semelhança de algo comum.

£20) A concepção da intelecção da semelhança comum das coisas: tanto as sensações quanto a intelecção são próprias da alma. Para a intelecção basta a semelhança da coisa que o próprio espírito elabora para si. É uma certa ação da alma e a forma para que se dirige é uma certa coisa imaginária, fictícia. Ora, as verdadeiras dimensões de um corpo inerem senão ao próprio corpo e nem a intelecção, nem alguma essência verdadeira podem ser enformadas por uma qualidade fictícia.

£21) O nome universal concebe uma imagem comum e confusa de muitos; a palavra singular apreende a forma própria e singular de um só. Em 'homem' há uma certa semelhança com cada um dos homens que é comum a todos mas não é próprio de nenhum; em Sócrates, que introduz no espírito a forma própria de um único, um nome singular, uma coisa pode ser nomeada, certificada e determinada.

£23) Os próprios ‘universais’ engendram mais intelecção do que opinião, pois a sua imposição está mais de acordo com sua própria natureza ou propriedades inerentes e, embora sejam de significação confusa quanto as essências denominadas, dirigem o espírito do ouvinte para aquela concepção comum, assim como os nomes próprios para a coisa única que significam.

Porfirio: certas coisas são constituídas de matéria e forma, outras à semelhança de matéria e forma. Boécio: o pensamento coligido da semelhança de muitos é um gênero ou espécie. Platão: a concepção de universalidade não predica de muitos, como em Aristóteles, mas à semelhança de muitos que existem e subsistem fora dos corpos (nous).

£24) A querela dos universais entre Platão e Aristóteles

Segundo Abelardo, Platão pensa que a natureza dos universais subsiste naturalmente em si mesma de tal modo que conservaria seu ‘ser’ se não estivesse sujeita à sensação [substancialização] e, de acordo com este ser natural, é chamado de universal. Já Aristóteles diz que os universais subsistem sempre nos sensíveis, e ele o diz quanto ao ato, porque, evidentemente, aquela natureza que é o animal, designada pelo nome universal e, de acordo com isso chamada universal por certa transferência, nunca é encontrada em ato a não ser na coisa sensível. Os dois concordam que as formas comuns concebidas são designadas pelos nomes universais. A razão parece também concordar.

Abelardo e o Nominalismo: A natureza dos universais sendo diferente da intelecção (como em Platão) e da coisa (como em Aristóteles) surge concebê-la pelos nomes, senão serem significadas por eles. Os nomes, uma terceira significação para os universais.

CONTINUA: Pedro Abelardo - Lógica para principiantes III



[1] ABELARDO, Pedro: Lógica para principiantes; Trad.: Carlos A. R. do Nascimento. Editora Unesp, 2ed. São Paulo.
[2] Coligidas no livro Organon, Aristóteles.

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Segue: http://www.academia.edu/5659634/ABELARDO_Pedro_-_L%C3%B3gica_para_Principiantes

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    2. e tbm: http://charlezine.com.br/wp-content/uploads/2012/10/07-Santo-Anselmo-e-Abelardo-Cole%C3%A7%C3%A3o-Os-Pensadores-1988.pdf

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